
Segundo a arqueóloga italiana Paola Villa, da Universidade do Colorado (EUA), "há o canibalismo funerário, realizado para honrar os mortos; o agressivo, que visa aos inimigos; e, é claro, o de sobrevivência, praticado em condições extremas, como acidentes e naufrágios. Na Idade Média e na Renascença, houve até o que podemos chamar de canibalismo medicinal, no qual certos remédios incluíam sangue ou outros tecidos humanos."
Escavações em vários lugares do mundo identificaram a prática com pouca margem para dúvidas entre hominídeos, os membros ancestrais da linhagem humana. Dois exemplos famosos envolvem o Homo antecessor, que viveu na Espanha há 800 mil anos, e neandertais que habitaram a França há 100 mil anos. Nos dois casos, as populações canibais estavam em lugares ricos em recursos de caça. Portanto, seja lá o que os tenha levado a comer carne humana (ou pré-humana), desespero e falta de opções não integravam a lista.

Churrasquinho de português
Os reis do canibalismo agressivo talvez sejam os tupinambás e outras tribos do grupo linguístico tupi que habitavam o Brasil no século XVI. A ideologia tupinambá, relatada com precisão pelo viajante e militar alemão Hans Staden (que quase foi devorado por eles), tem a ver com o canibalismo como vingança e também como homenagem contra o inimigo. Numa espécie de cerimônia mágica, o devorador ganhava a força e a coragem do devorado, após um longo cativeiro em que o futuro "jantar" era bem tratado e até ganhava uma esposa temporária.
Os tupinambás comiam braços, coxas, costelas e vísceras do inimigo morto. Até as mães da tribo embebiam os bicos dos seios no sangue para que seus bebês provassem da comida humana. Outras tribos não tupis da Amazônia, como os waris, chegaram a praticar o canibalismo agressivo até os anos 1950.
Já o endocanibalismo, que envolve o consumo de membros do próprio grupo social ao qual se pertence, em geral é encarado como uma forma de manter a essência do parente ou do amigo morto perto daqueles que o amaram em vida (ele só é devorado após sua morte natural). É o que ainda fazem os ianômamis, ao comer as cinzas de seus companheiros mortos, ou o que faziam os forés, uma tribo de Papua-Nova Guiné.
Entre os forés, mulheres e crianças comiam o cérebro do morto, enquanto homens devoravam músculos ou até as fezes que sobravam do intestino grosso do finado parente. "A preocupação espiritual que eles mostravam pelo corpo do parente morto, e o desejo de incorporá-lo ao dos vivos, são similares à crença cristã da transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo", compara o médico australiano Michael Alpers, da Universidade Curtin de Tecnologia. A prática acabou sendo encerrada porque transmitia a versão humana do mal da vaca louca, por causa do consumo da massa encefálica.
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