sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A quem incomoda o aborto e perspectivas quanto ao controle do corpo feminino:






Me propus elaborar uma análise critica com base na matéria “Vamos continuar a recolher corpos de mulheres mutilados e carbonizados?” da colunista Cláudia Collucci veiculada no site da Folha em 24 de agosto de 2016. Para tal, se faz necessário à aplicação de um olhar holístico da problemática das instâncias inerentes a saúde da mulher, tensões politicas, atravessamentos ideológicos, além da dinâmica sócio cultural que permeia a temática do aborto para além de um tópico tabu, mas sim um problema que carrega em si pressupostos que concernem ao poder patriarcal do sistema social vigente.




A matéria “Vamos continuar a recolher corpos de mulheres mutilados e carbonizados?” aborda a problemática do aborto e os inúmeros casos de mortes de mulheres que recorrem às clinicas clandestinas e os aspectos que atravessam a dinâmica desse cenário social. Assim a colunista debate a questão exemplificando os casos de algumas das inúmeras vitimas desse sistema que emperra qualquer efetividade de ações no que concerne as politicas de saúde publica.


Contudo não se pode debater a questão da saúde e cuidados da mulher e principalmente o aborto sem se posicionar perante o sistema machista e patriarcal que gere as decisões primordiais que poderiam evitar tal cenário. Ou seja, partindo da estimativa da OMS que levanta que a cada dois dias uma mulher brasileira morra devido a complicações de abortos clandestinos, não se pode negar a influencia de uma cultura arcaica que põem a vida de mulheres em risco por se ater ideologicamente a princípios machistas que pregam o corpo da mulher como propriedade do poder patriarcal.


Há nisso ainda uma perspectiva da sistemática econômica, pois abortos acontecem e sempre aconteceram e legal ou não a questão é que a alta mortalidade atinge mulheres das camadas mais baixas da sociedade, ou seja, sob o prisma do poder econômico o aborto e sua problemática ganha cor, etnia e classe social, isso no que tange a sua criminalização e mortalidade.


Por isso, não se pode deixar de citar o aspecto mais hipócrita de tal dinâmica, considerando o Brasil um país de maioria cristã, observa-se a influência nefasta de pontuações ideológicas que só podem ser comparadas a uma Idade Média politica que deixa de lado a máxima de Estado laico para empregar um sem fim de retaliações para com o que tange a ações para o bem estar da mulher. Questão essa torna se ainda mais preocupante atualmente ao se considerar a configuração do governo vigente que coloca um ministro da saúde (Ricardo Barros) que tem em sua pauta que igrejas participem do debate do aborto.


Observa-se um evidente desdém daqueles que detém o poder para com a temática e mesmo ineficiência para sua função ao nem ao menos observar o aborto como um problema de saúde publica.


Assim o que se observa é a clandestinidade não só das clinicas de aborto, mas da tragédia em si que se expressa na vida de mulheres que ainda no século XXI precisam lutar pela posse de seus próprios corpos. Uma clandestinidade que tange a fatores históricos, sociais, econômicos e que ainda não consegue nem ao menos se livrar uma óptica inquisidora seja da politica, seja do próprio preconceito social alardeado midiaticamente.


Talvez seja simplório dizer, mas torna se inegável a afirmação de que se homens engravidassem o aborto já seria legal há muito tempo. Questão que remete a fato do aborto masculino que além de expressar o abandono de milhares de crianças criadas apenas pela mãe, também levanta a questão de como o meio social julga a mulher e exime os homens da responsabilidade, como se até justificasse tal ato como natural da masculinidade.


É inegável a problemática cultural que barra e faz frente a trazer o aborto para a luz da problemática da saúde pública a própria sociedade se nutre de uma cultura que se diz pró-vida, mas se estabelece como pró-nascimento, como se dissesse que a vida do feto é importante, mas a da mãe pode ser posta em risco.


Em suma a saúde pública e as politicas públicas que atualmente no Brasil enfrentam um dos maiores perigos de retrocesso e não somente devido às inúmeras jogadas politicas que somente atendem a agendas individuais e partidárias, quando não de interesses de empresários e gente do alto escalão determinada a manipular toda forma de poder em beneficio ao lucro, mas também devido a cultura social que nas ultimas décadas se desenvolveu em favor das minorias, estabelecendo programas de desenvolvimento que mudou muito a face do país. Ao mesmo tempo observa-se que se estabeleceu uma resistência neoliberal que se sente ameaçada por uma constituição social mais igualitária que lhe retira o poder de subjugar as faixas sociais desfavorecidas.


Por sinal é mais do que evidente de que temas como aborto, cotas, direitos LGBTs ou mesmo programas como bolsa família ou auxilio reclusão incomodam exatamente aqueles que historicamente sempre estiveram em vantagem econômica, assim não é surpresa que quando se fala em saúde da mulher e legalização do aborto, os que mais se ressentem são homens, heterossexuais, cis, brancos, cristãos, oriundos das classes sociais mais altas.



Tal analise possibilita entender a questão do aborto como um enfrentamento que remete a problemática do controle, neste caso o controle do corpo feminino, talvez até mesmo em analogia a conceituação de Foucault, como um controle do corpo físico e do corpo social da mulher perante o Estado, o patriarcado, a sociedade, cultura e infelizmente a religião que condena e julga tem levado mulheres a morte pelo simples fato de não observar uma questão de saúde pública como ela realmente é. Assim, torna-se lamentável que em tempos de Zica vírus a saúde e bem estar da mulher ainda seja encarado por uma ótica tão reacionária. 

Referência:


COLLUCCI, C. Vamos continuar a recolher corpos de mulheres mutilados e carbonizados? Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2016/08/1806424-vamos-continuar-a-recolher-corpos-de-mulheres-mutilados-e-carbonizados.shtml Acesso em: 12 set. 2016.

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